quinta-feira, 15 de julho de 2010

O Mal do Mundo é se achar superior ao seu semelhante




Portas abertas vem me convidar
A usar o microfone e resolver falar
Do que eu vivo já que estou vivo
Depois de tanto tempo respirando ar
Cortante seco, me esfola a garganta
Mantém caído quem já não levanta
E do sinal fechado pro lado da bonança
Que nos mostra o lixo, mas não limpam a lambança
Cair na vida e procurar a luz
A natureza e o céu que me conduz
Olhar pra cima e seguir em frente
Rumbora agora que o futuro é a gente
Calado não da pra ficar
Mudo, sem mudar
Olhos abertos, fácil de enxergar
Que quem ganha o poder não quer ver o mundo mudar
A novidade subverte e mostra novas opções
E mata de medo quem não tem mais soluções
Quando atirei, acertei meu coração
Só o bem faz a revolução
Lavo a alma com o sal, me faz cicatrizar
Não ganho medo de perder
Nem perco a vontade de ganhar
Cair na vida e procurar a luz
A natureza e o céu que me conduz
Olhar pra cima e seguir em frente
Rumbora agora que o futuro é a gente
Calado não da pra ficar
Mudo, sem mudar
O Sol nasce igual, véi, pra todo mundo
Não vou te prometer mundos e fundos
Eu sei que tudo que vai, um dia volta
E que pra tudo que se faz, vem uma resposta
Eu sigo em frente e me mantenho no bem
Quando eu me perco meus amigos me mantém
Firme no trilho, a gente vai ao fundo
Bem longe do mal do mundo

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Ótimo depoimento de Gabriel Thomaz


Ainda sobre a entrevista do Pablo no Inimigo.

O comentário do Gabriel do Autoramas foi muito bacana.

Confira:


Gabriel Thomaz comentou em 23/1/2010 às 10:29

Bom, aproveitando um sábado sem show e dois dias antes de mais uma turnê bem longa, peço licença pra gastar um tempo aqui lendo tudo isso aí em cima e dando minha opinião sobre o assunto. Me sinto bem à vontade pra falar sobre isso, pois sempre fiz parte dessa parada independente no Brasil, desde lá daquela época q minha primeira banda vendeu 2500 fitas K7 gravadas uma a uma no som do meu padrasto. Faz tempo, eu tinha a idade da Malu Magalhães.

Com o Autoramas nós já fazíamos tudo isso q o nosso amigo Ney relatou aí sobre o Macaco Bong, mas desde 2002, 2003. A primeira banda de fora de Cuiabá que o Pablo Capilé levou pra lá foi o Autoramas, deve ter dado uns mil pagantes. E foi um esquema muito bem feito, com cachê, passagens, hotel, rango delicioso. Mas não foi só ir pra lá e aproveitar: Organizamos uma turnê, fizemos tudo por terra. Saímos do Rio, tocamos em SP, depois em Londrina, depois Campo Grande-MS (onde uns certos japas nos viram tocar e nos convidaram pra uma turnê no Japão com eles bancando tudo) e finalmente chegamos em Cuiabá.

Levei um choque no palco q eu quase caí pra trás, mas tudo bem. Só assim o lance todo se concretizou. E vieram outros convites, frutos de turnês como essa. Já fizemos uma turnê no Nordeste em 2003, só eu e Bacalhau, sem baixista. Igualzinha a essa do Macaco Bong, 10 shows, 10 dias sem day-off (desde essa época temos uma média de 90 a 100 shows por ano). Mas ganhamos o nosso em todos os shows, por um lado foi até bom termos ido em duas pessoas, sobrou um cascalho a mais pra cada um.

Só pra resumir: Trabalhar é muito bom, viajar, tocar, ver coisas boas e ruins é muito bom pra qualquer pessoa. Mas tem que ganhar alguma coisa sim. Só assim as bandas vão continuar, fazer uma carreira. Quantas bandas boas acabaram nos últimos dois anos? E algumas dessas eram bandas q trabalhavam sim, não só dessas q só reclamam.

Não vou fazer contas aqui, mas músico também tem muito gasto. Aliás, tem até um detalhe engraçado dessa história de conta: Nessa primeira vez q fomos tocar em Cuiabá, foram umas 15 pessoas acender um incenso no meu quarto do hotel, incluindo o Pablo e, acho q o Ney tb, e eu ficava o tempo falando que pras coisas funcionarem tinha q fazer tudo na ponta do lápis. Tive até um flash-back lendo essa entrevista. E continua dando certo: assim consigo viver de música.

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Nota do blogueiro: não estava nesse dia não. Nesse evento eu fui como público, perguntei pro Pablo como fazer pra comprar o cd do Autoramas, ele me levou no camarim, e comprei o disco das próprias mãos do Gabriel. Eu, adolescente, 18 anos, ignorante, peguei o "Ninguém Pode Parar os Autoramas" e falei "essa capa tá zuada, com defeito". Ao qual o Gabriel respondeu, paciente: é 3D.

Dois anos depois eu já era do Cubo e toquei com o Macaco na primeira apresentação da banda fora de MT, no Goiânia Noise 2005.


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Fabrício é meu amigo de fé há uns 12 anos, é uma figura-chave dessa parada toda. Sempre fizemos um monte de coisas juntos e o cara é competente pra cacete, tô defendendo mermo. Sou de Brasília, do lado de Goiânia, toquei lá muito, antes e depois dele se juntar com a Monstro. Antes da Monstro, tocar em Goiânia era se apresentar pros mesmos 20 malucos de sempre.

E, depois da Monstro, é isso tudo q todo mundo já sabe. Já fizemos todo tipo de esquema (de grana, custos, etc) e sempre tentamos ajudar um ao outro, cada situação é uma situação. De repente o q tá faltando nessa parada toda é diálogo, é informação, conexão mais direta…não é sair por aí bradando q é tudo máfia ou q banda não merece cachê.

E ainda suspeito que o Pablo estava falando exclusivamente de bandas iniciantes, que tem muito o q ralar, o q é um privilégio! Ah, se quando eu comecei já tivesse todo esse circuito…

Outra coisa q eu sei, q não é nenhum segredo é q pra uma banda chegar num Festival (eu organizava um, o Ruído)é exatamente a quantidade e a qualidade das coisas q essa banda faz FORA do circuito dos festivais, ou seja quanto mais vc faz, mais é chamado pra fazer as coisas, e, consequentemente ganha mais.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Sobre a entrevista do Pablo e as respostas toscas de quem não saca porra nenhuma



Há alguns dias o site potiguar O Inimigo postou uma matéria que está dando muito o que falar: uma entrevista com Pablo Capilé, Coordenador de Planejamento do Espaço Cubo, articulador do Circuito Fora do Eixo, e vice presidente da Abrafin, falando sobre a rede, os coletivos, ABRAFIN, entre vários outros assuntos relacionados.

Pablo toca em uma série de questões ainda polêmicas para muitos “artistas” que ainda não se atentaram para a realidade atual da música brasileira. Entre difamações toscas e acusações sem fundamento, a reportagem está repleta de comentários interessantes de Fabrício Nobre, Carlos Eduardo Miranda, Edimar Filho, entre outros. A somatória de manifestações já ultrapassou a casa dos 120.

Não pudia deixar de comentar lá né..

E coloco aqui a íntegra da argumentação:

É incrível a dificuldade que “artista” tem de enxergar a dimensão dos festivais enquanto expositores da nova música brasileira. A música brasileira atual não está mais nas rádios e sim nos festivais. A lógica anterior, a do jabá, era de pagar pra tocar (na rádio). Hoje, que as coisas estão se transmutando para um campo mais justo e democrático, tem gente batendo o pé e fazendo birra. Ninguém precisa mais pagar pra se expor pra grandes públicos, mas ainda assim querem mais. E se lembrarmos que quem coloca o público no festival não são as bandas, mas sim os produtores do festival (com meses de ação estratégica), essa lógica egocêntrica fica ainda mais ridícula.

Pra citar duas bandas já referidas aqui: Eu jamais saberia da existência do Sweet Funny Adams se não fosse os shows que eles fizeram no Bananada e no Calango. O único show do Cidadão Instigado que vi foi no Festival Varadouro, em Rio Branco, no Acre. Mas em compensação, vi uns 15 shows do Móveis Coloniais de Acaju, em tudo quanto foi quanto do Brasil.

Não entendo como pode existir tanto anacronismo, e fulanos continuarem achando que a sua criação super genial é o que basta para se inserir no mercado. E o processo de inserção no mercado é tão básico e simples, que parece cartilha do primário.

Pra citar um exemplo próprio, o Macaco Bong é uma banda empresa em seu modo de funcionamento e gestão, mas em sua essência é mais um dos programas do Espaço Cubo, dentre vários outros programas do instituto que envolvem cultura, tecnologia social e economia solidária. Não acreditamos que todas as bandas tenham que ser dessa maneira, óbvio, mas um mínimo de compreensão de mercado, humildade e “saber enxergar o próprio tamanho” é o caminho básico do sucesso – lembrando que o conceito de sucesso aqui é pagar as contas e não o estrelato. Nesse contexto vale mais uma vez citar o Móveis, que considero a maior banda brasileira da atualidade.

Sobra preguiça e falta planejamento pros chorões. Por exemplo, quando o Macaco Bong capta algum valor em espécie, não existe uma divisão do bolo para cada integrante suprir suas necessidades de regalias, mas sim um reinvestimento sistêmico em todo o processo, seja no Espaço Cubo, numa próxima viagem da banda ou numa turnê por vários estados com outras bandas parceiras, dando ainda mais visibilidade e estímulo a todos os envolvidos da cadeia produtiva.

E mais, gerando dados e tecnologias registradas e disponibilizadas para todo o mundo, abrindo toda a planilha de custos e viabilidade. A última turnê que fizemos – uma ação da Agência Fora do Eixo com mais duas bandas Porcas Borboletas e Burro Morto – consolidou uma rota de Fortaleza(CE) a Uberlândia(MG), TOCANDO TODOS OS DIAS SEM DAY OFF, cada dia em uma cidade diferente. Independente de ser fim de semana ou meio de semana, as casas ficaram lotadas, e tudo pode ser conferido pelo http://foradoeixotour.wordpress.com.

É nesse momento que o artista tem que se entender como gestor, sabendo negociar com cada caso específico. Tem lugar que foi entrada franca, tem lugar que teve bilheteria e a tour se capitalizou, tem lugar que o produtor precisou usar a bilheteria pra pagar o aluguel da casa de shows que não é dele… enfim, cada local uma realidade diferente a ser dialogada e produzida conjuntamente. É nesse momento que o artista se entende como protagonista da História (com H maiúsculo, saca?) não sendo um mero bobo da corte que garante o entretenimento, exigindo receber, receber e receber pela graça concebida. Na boa, é muita preguiça só querer subir no palco, tocar e exigir a todo custo ter a mãozinha molhada no final da festa.

É isso que faz com que o Macaco Bong se capitalize com shows no Planeta Terra e na Virada Cultural, por exemplo, mas banque a gasolina pra tocar no meio do mato, em cidades de produção de eventos em formação, como foi em Pirenópolis (outro exemplo já citado aqui nos comments).

Os comentários de China são quase hilários de tão sem embasamento.

“é facil pegar dinheiro público, difícil é fazer música”.

Mano, fazer musica é facil, fazer musica é gostoso, é a valvula de escape. Dificil é fazer festival. Vem tentar fazer um festival do porte do Calango numa cidade como Cuiabá, se ralar todo pra trazer o backline de fora pq aqui não existe, e a partir daí criar a demanda para que as empresas de sonorização invistam em equipamentos para fornecer, só pra citar um único exemplo. Toda a demanda da cadeia produtiva daqui está sendo criada há 9 anos de Espaço Cubo, sendo 7 edições do Calango.

“Como eu posso fazer de graça a única coisa que tenho pra ganhar a vida?

Ô China, a única coisa que vc tem pra ganhar a vida é tocar em festival? Com tudo oq foi dito aqui não tá claro que os festivais são a nova rádio, o novo canal de exposição? Cabe à banda se articular e formar público no festival pra depois poder voltar à cidade e encher uma casa de show e sair de lá com o valor da bilheteria.

ha trocentas maneiras de se capitalizar, “ganhar grana” com isso. Querer viajar de avião, só tocar no festivalzão lotado e receber milhares de reais é mamata demais..

vai fazer planilha de excel, bróder..

vai se planejar..

Como bem disse o Edimar, “A banda coloca metade dessa grana que o cara ia gastar de passagem (aérea) de combustível no carro, e dá pra fazer mais pelo menos umas 5 cidades perto. E o cara ainda vai economizar metade da grana de passagem”.

É simples.

Ralar pra fazer boas composições, tirar bons timbres, executar bons shows e gravar bons discos é só UMA PARTE do processo. O artista é um trabalhador como outro qualquer..

Mais uma vez citando o Edimar, “Agora, tem gente que não pode mandar e-mail nem viajar de carro né??? Claro… são artistas!”

aí fica mesmo bem difícil… rs

Vamos pensar mercado.. qualquer comerciante sabe que não adianta empurrar o produto guela abaixo do consumidor, vc precisa conquistar o consumidor. No caso do músico, isso significa (entre outras coisas) formar o seu público. O festival é a maior oportunidade de formação de público que se pode ter, maior oportunidade de se conquistar o seu “consumidor”, para depois voltar ao local e se capitalizar produzindo conjuntamente, seja com coletivos, produtores ou casas de shows.

Um exemplo?
A gente ja fez show em recife (a cidade do China), na rua, de graça, montando toda a estrutura, sem ganhar um tostão, mas tocando debaixo de chuva e conquistando público. Hoje tenho certeza do sucesso de um show do Macaco no recife em qualquer casa de show que seja. Assim como a aprovação na curadoria da feira musica brasil pra estar entre as 3 apresentações que fecharam a noite no Marco Zero pra 10 mil pessoas. =)

Investimos muito pra resultados como esse e continuamos investindo. O processo é contínuo e constante.

Repetindo o comentário da Júlia Leite:

“Pablo deu uma verdadeira aula de sabedoria cultural, sem “pagar de pseudo intelectual”, sendo muito perspicaz com os símbolos utilizados nas palavras mais massificadas nesse cenário, construindo uma verdadeira tese própria, condizente com a realidade e mais, mostrando ser muito possível construir uma cultura solidária, se todo mundo ceder um pouco dos seus egos, do seu bairrismo e coorporativismo pessoal/grupal, movido à interesses pessoais que sinceramente, não cabem no meio cultural ideal. Pablo mostrou que essa cultura antropológica, digna dos sábios, não é utopia, é possível e já tá acontecendo. E mostrou como a história é sábia de nos contar repetidas vezes, que grandes “fazedores” de cultura e história, sempre são alvo da maioria medíocre e devem inclusive superar isso, pra se estabelecerem”.

É muito claro que a realidade econômica da música brasileira no momento histórico que vivemos exige que o trabalho seja dessa maneira pra funcionar. Não tenho fortunas, mas tenho instrumento razoável, como todo dia num dos melhores restaurantes da cidade (com o Cubo Card, moeda social do Espaço Cubo), moro bem, viajo o país e exterior, perdi a conta de quantas praias conheci esse ano, vi show do Sonic Youth, dialoguei com os caras de igual pra igual, na posição de uma banda brasileira de porte considerável, entre muuuuitas outras experiências.

É uma riqueza muito maior do que o valor hegemônico dado ao capital.

É por aí…

mas vou indo, hoje tem prévia do grito rock aqui em cuiaba, e tem dezenas de moleques loucos com a agitação, que vão tocar pela primeira vez na vida pra um público de 100 pessoas, se estimular com isso e formar as próximas boas bandas daqui de Cuiabá e quiçá do país.

Quem sabe daqui uns 4, 5 anos, uma dessas bandas não estará diante de dez mil pessoas no Marco Zero, em Recife.

Com o perdão do trocadilho.. é ‘pagar pra ver’.

Abs.

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Teve gente que se aproveitou da minha comparação com os tempos de Jabá para dizer que os artistas hoje tem que pegar jabá para os festivais. dálhe nova resposta:

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Só pra contextualizar a parte do jabá, que foi o único ponto da minha fala que pegaram pra tentar desconstuir. Ninguém tem que pagar jabá pra festival, é investimento conjunto.

Comparar os milhões de dólares pagos às rádios com 100 reais pra uma passagem pra Goiânia, é no mínimo falta de pesquisa. Esse investimento conjunto tem tornado as condições cada vez mais favoráveis pra todos, e tudo indica que as melhoras só tendem a continuar, e cada vez mais aceleradas. Estamos mudando a realidade do país.

Pra, mais uma vez, dar o exemplo da faculdade aqui… o melhor dos mundos será quando a educação for distribuída pra todos os cidadãos, mas enquanto não é, o cara paga a faculdade por 4 anos – um puta de um investimento caro – pra dali obter retornos. Quatro anos é exatamente o tempo de existência do Macaco Bong. Saiu muito mais barato que a faculdade, e me encontro muito mais realizado.

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E aí chega por aí. Toda tentativa de desconstrução por parte de vaidosos egocêntricos é bem rasa, e se torna perda de tempo e redundância insistir na discussão com quem só fala fala e não apresenta nada.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

E(I)NFERM(N)O


(sem imagem msm.)


Na quarta feira passada pela manhã acordei acreditando que estaria pronto pra mais um dia quando, ao me atrever a levantar, pouco antes das 7h, no costumeiro horário de um dia não posterior a um evento à noite, quando senti os sintomas de um mal que às vezes me acomete: queda brusca e duradoura da pressão corporal, auto diagnosticada como resultante de acúmulo de vários dias dormindo pouco, potencializado ainda por 30 horas seguidas viajando de ônibus e uma péssima alimentação do dia anterior. Não há organismo que resista. Por alguns minutos você ainda tenta insistir, até descobrir, quase arrancando os cabelos: “é... não vai dar.”


Em momentos assim cabe a reflexão sobre o processo em que vivemos ser tão fast and furious e apaixonante de uma maneira que a atenção fica full time voltada ao exercício e você simplesmente vai na tora... Justo eu que quando mais novo tirava onda das top models que esqueciam de comer (“que absurdo, esquecer de comer”) cometendo o mesmo ledo engano. Aí chega uma hora que você começa a entender que se alimentar direito faz parte do trabalho. Senão dá pala mesmo.


O título do texto desse post coloca duas palavras diferentes em um mesmo contexto. O inferno que passei enfermo nesses dois dias. A rotina foi permanecer deitado, recebendo algumas ligações dos parceiros cubistas, solicitando algum trabalho dentro dos “10 minutos ou um pouco mais” que o corpo me permitia “livre” antes de reclamar e pedir pra ser de volta mantido na horizontal.


Nessa hora o diálogo interno que se estabelece faz de tudo pra se livrar do inferno que é estar preso à situação orgânica. Há momentos em que o desespero da inércia imóvel força a consciência a dar ordens no corpo. Ora, se existe até gravidez psicológica porque eu não poderia usar o poder de convencimento da mente pra me obrigar a dormir? Ver TV é que não dá, é só pra você ficar mais doente ainda.


A única coisa que dá pra se olhar na tela é o noticiário e olhelá. Em momentos assim a única coisa que dá pra fazer é se propor a novas reflexões, o que torna a vontade de “levantar” ainda mais forte, ao fazer lembrar mais uma vez de como vim parar aqui (digo “mais uma vez” por já ter falado isso aqui antes em um dos primeiros posts).


Mas vou agora um pouco além...


Tipo, os filhos da classe média atual se julgam mais inteligentes que os pais, pois chegaram na faculdade mais cedo, por esforço dos pais que bancaram o colégio particular e o pré vestibular do indivíduo. O fato cria uma arrogância tremenda nesses “doninhos do saber”, que por entender um pouco mais de tecnologia e ter acesso a mais informações com muito mais velocidade e dinâmica (a Era da internet) se acham detentores de muito conhecimento.


Agora cara, imagina isso na cabeça de um cidadão que cujo pai saiu do interior do Ceará (Cariré, já ouviu falar dessa cidade?) e se formou aos 38 pela universidade particular realizando um sonho. Junte a isso o primeiro lugar na aprovação do vestibular, o conhecimento de uns acordezinhos no violão, um ouvido minimamente musical e aptidão para a escrita. Pronto, era o Cara! (um dia eu já fui pop, como diriam os Autoramas).


E aí era um processo foda porque rolava o seguinte: Esse seachismo, esse lado “doninho do saber” conflitava com um outro lado que já reconhecia o comportamento desprezível da maioria dos jovens dessa geração. Ao mesmo tempo que se sabia que havia muito a se fazer (uma vez que você é esclarecido e se torna refém do seu esclarecimento) me imobilizava pela preguiça e falta de coragem.


Aí vi que já tinha gente fazendo quando conheci o Cubo, que fora toda a gama de trabalhos que executa tem ainda a importante missão de “reconhecer” seus “recrutas”. Foi assim que salvou um de ser banger artista, outro de ser playboy de balada, outra de ser paty... O processo é viral e não permite essas ervas daninhas. Simplesmente não cabe. É matar os vícios ou matar os vícios.


Foi ali que descobri que aquele "saber" todo não passava de uma mera introdução a todo esse universo. Foi ali que vi que não sacava porra nenhuma de música e ainda teria (e tenho) muito chão pra aprender. E aos poucos, cotidianamente, vai se percebendo o quanto esses vícios se transformam em injustiça até contras os progenitores, que foram quem oportunizaram esse teu saber mínimo.


Veio daí a vontade ainda maior de levantar, que nessa de mente condicionar o corpo, tem influência pesada na recuperação. Foi como a resposta que dei pra Dríade quando ela me ligou na noite de quinta, perguntando como tava e a resposta foi “olha, pelo andar da carruagem, acho que amanhã tô de volta à guerra”. A guerra de remar contra uma série de valores paias vigentes no senso comum.


Ta loco mano... esses dois dias parado serviram no mínimo pra reafirmar daonde vim, onde estou e pra onde estamos indo.


Bora aí que é nóis...


I’m back to the front!

terça-feira, 14 de abril de 2009

Motivo de Orgulho: Móveis Nico e Liais de Acuiabajú!

Pedindo desculpas pela lacuna volto hoje a postar aqui, pra contar um pouco das últimas experiências pessoais passadas. Em particular pra relatar dois grandes motivos de orgulho. A primeira delas é referente ao Móveis Coloniais de Acaju, a banda candanga que vem conquistando o país.




Fomos lá com o Macaco Bong pra participar do Móveis Convida, o festival promovido por eles. Foi uma experiência fodástica, tanto pela qualidade do evento produzido, a qualidade dos shows (Móveis, Black Drawing Chalks, Galinha Preta), quanto pela satisfação em reconhecer no Móveis Coloniais de Acaju uma banda que enxerga as perspectivas de mercado e trabalha de maneira completamente auto gestionária.

Pra desbancar o Móveis como maior banda independente, só mesmo o Calypso, mas que não conta aqui nesse contexto. Sobre esse assunto, fiz uma matéria que foi ao ar no Portal Fora do Eixo, já colocando o Móveis como a maior banda independente do país. A maioria das informações disponibilizadas lá na matéria foram colhidas numa entrevista feita com os caras quando o evento todo já havia terminado. O Móveis Convida aconteceu em Brasília, na UNB, e em Goiânia, no Martim Cererê. Pegamos eles no momento em que o balanço prévio (pelo menos o emocional) já estava formatado na cabeça de cada um: no buzão, na viagem de volta para Brasília, à meia luz (ui!)...

Na matéria do Fora do Eixo você encontra as partes que julguei mais importantes pra redação do texto. Aqui abaixo, coloco o momento da entrevista em que perguntei pros caras o que tinham achado do evento e eles inverteram a situação e fizeram com que eu respondesse o que eu tinha achado.

A minha resposta foi:

Bom, eu achei muito foda, é muito massa encontrar perfis parecidos com a maneira como a qual a gente pensa e vem trabalhando. Tanto na questão de viver a história, quanto na questão de mercado. A gente sempre acompanhava isso lendo sobre vocês e dessa vez a gente pôde ver acontecendo mesmo e ver como é realmente parecido, com a diferença de que no nosso coletivo só três são músicos e formam o Macaco Bong, mas tem mais, de 10 a 15 que estão juntos, que nem sempre viajam juntos, mas ali em Cuiabá é a mesma história, que é o Espaço Cubo. E o Circuito Fora do Eixo é a união dessa galera toda, não só de coletivos, mas também empresas que trabalham nessa onda, como a Monstro, que veio numa pegada mais de mercado, mas que vem se abrindo cada vez mais pra essas perspectivas, então pra gente foi muito foda. E também a questão específica dos shows, a gente se sentiu muito à vontade, som legal, feedback do público muito legal nas duas cidades. Enfim, foi positivo em todos os aspectos que poderia ser.


Então, a entrevista na íntegra, com o Móveis entregue (rs) pode ser ouvida, se você baixar o mp3 abaixo.

ENTREVISTA COM O MÓVEIS
(são 41 minutos de papo)

LEIA A MATÉRIA NO PORTAL FORA DO EIXO

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O segundo motivo de orgulho é da dupla Nico e Lau, que atua na cultura de Mato Grosso no segmento humorístico. Nesse fim de semana tive a oportunidade de assistir ao evento produzido pela Nico e Lau Produções, a primeira Temporada Nacional de Humor de Cuiabá, que contou com os famosíssimos Falcão e Paulo Silvino, além da dupla de humor cuiabano. Cara, foi a primeira vez que eu vi um show do Nico e Lau, e a impressão que ficou é de um trabalho sério (humorismo sério? rs) feito com afinco e qualidade. Também rendeu matéria no Fora do Eixo (clique aqui).

Bacana também identificar artistas pedreiros em segmentos que não tem ainda tanto a ver com o nosso (veja bem, eu disse “ainda”). Além do ímpeto pelo fazer acontecer, o trabalho artístico também é muito bom. Vou colar aqui um trecho da matéria de cobertura que redigi (a Cubo Comunicação fechou parceria de cobertura com a Temporada):

O grande charme do Nico e Lau está na maneira como os atores constroem sátiras muito bem humoradas do matogrossense de raiz, sem permitir que a imagem do nativo seja denegrida. O sotaque, o linguajar e os trejeitos são os elementos principais, que se mesclam a um roteiro construído em cima da realidade cuiabana, com sátiras de bairros, hábitos, entre outros elementos.

E bacana que o reconhecimento dos caras como modelos de comediantes e empreendedores do humor foi ressaltado por Falcão e Paulo Silvino. O Falcão mesmo afirmou que nunca viu nada igual em nenhuma outra cidade brasileira fora do Ceará, estado tido como unanimidade na produção de humoristas. A idéia dos caras pra dar continuidade na história é trazer o Ziraldo pra dar palestras e oficinas de desenho voltadas pra linguagem do humor, e fazer uma exposição de cartuns, reunindo os profissionais desse ramo em Cuiabá, trazendo também mais trabalhos de fora para a exposição.

Cara, du Caralhíssimo!

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Assino esse post como o mais novo fã do Móveis e do Nico e Lau, e comendo feijoada búlgara com farofa de banana.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Alto, Floresta!



Domingo passado o Espaço Cubo esteve presente em um evento bem longe daqui. Apesar da distância (mais de 800 km) o destino era ainda em Mato Grosso (eta estado continental). A função a ser cumprida era o atendimento da solicitação da coordenação de cultura (Secretaria da Cultura e Juventude) de Alta Floresta, que pediram um integrante do Espaço Cubo para prestigiar a prévia da Convenção do Rock – evento que acontecerá pela terceira vez na cidade.


(foto: ensaio do Infecção)


Saí de Cuiabá “abandonando” a produção do Metal ao Cubo, que aconteceria naquele sábado no Caverna’s Bar, reafirmando a parceria estabelecida entre o Espaço Cubo e o Cachorrão, proprietário do Caverna’s. Mas a causa era nobre. Chegando em Alta Floresta, logo de cara foi possível ver o quão embrionário é a cena do local. Na tarde do domingo fui ao “estúdio de ensaio” da galera do Pica Pau Maluco, que também cede o espaço para a banda Infecção.


As aspas se justificam pela precariedade da coisa: o espaço para ensaio é apenas uma sala numa república. E o “ampli de baixo” era uma caixa wattson, daquelas sem grave, sabe? Confira abaixo um take do ensaio do Infecção.


TAKE ENSAIO INFECÇÃO (em breve)


Antes de falar do intuito e proposta da Prévia da Convenção do Rock, a contextualização: Kadu Oliveira, um dos produtores, foi o primeiro músico da cidade a produzir conteúdo autoral e hoje, juntamente com Ronaldo Adriano, coordenador de cultura da Secretaria de Cultura e Juventude de Alta Floresta, bate nessa tecla para com as bandas novas que surgem. Na edição passada, duas bandas cuiabanas participaram da Convenção: Ayakan e Anhangá.


Voltando então, a proposta da Prévia era a seguinte: selecionar 8 bandas para a Convenção do Rock, que acontece dia 17 e 18 de abril. Porém, nesse instante foi revelado uma das mazelas da iniciante cena da cidade. Um número bem expressivo de bandas desistiram(!). Apenas 9 bandas concorreram... foi de consenso que seria pouco elegante dispensar apenas uma banda e todas foram classificadas.


Uma outra mazela que assola Alta Floresta é o expressivo número de bandas cover. Durante a Prévia, não teve umazinha sequer que tocou o repertório inteiro de músicas autorais. E foram várias as que apresentaram covers durante o show inteiro, um absurdo. E é aí que nota-se outro fator muito interessante. O público vibra sim e canta junto com os covers. Porém, isso acontece muito mais por uma sede de shows ao vivo do que pelo cover em si. Por exemplo, a Infecção é tida como a banda mais profi de alta Floresta.


(ao lado, show do Infecção)



Antes do show, foram anunciados com entusiasmo por outro membro de banda, que dizia que o Infecção era “a maior banda da cidade, eram os caras que chamaram a responsa do profissionalismo pra si e são os caras que fazem acontecer”. E isso só porque a banda é a única que apresenta um figurino condizente e apresenta músicas próprias bacanas. Com certeza, novas bandas autorais conquistarão público fácil por lá. Estão sedentos... É impressionante como grande parte dos participantes do evento se lembravam do Anhangá, banda cuiabana que se apresentou na Convenção do Rock do ano passado.


Outro exemplo notável que toma-se nesse sentido foi na apresentação da Comando Geral, cuja vocalista canta muuuiiito, mas está aprisionada no repertório cover.



Enfim, veja abaixo mais um vídeo, um medley de takes do público.



VÍDEO DE MEDLEY DE TAKES DO PÚBLICO (em breve)


No final do evento ainda provocamos uma bate papo com os interessados que haviam ficado pra ouvir, contextualizando os trabalhos do Espaço Cubo, Volume, Circuito Fora do Eixo e profissionalismo de uma banda, e batendo em questões básicas... “Gurizada, o mais urgente, pára de tocar cover. E se vocês acham que vão ser descobertos por um olheiro de grande gravadora que vai vir aqui em Alta Floresta descobrir sua banda, esquece! Isso não vai acontecer”.


Resumidamente, Alta Floresta está assim. Um público sedento por produção, bandas surgindo a todo momento, só que grande parte delas por diversão e visando o repertório cover. Porém, através de ações como a Convenção do Rock isso pode ser mudado. Segundo os organizadores, já foi um grande passo em relação ao ano passado, quando as bandas ainda estavam em um nível de execução sofrível e NENHUMA tocou música própria.


Mas é tudo questão de um primeiro estímulo. Na metáfora, seria uma coisa parecida com o fato de terem inúmeras câmeras na platéia, e nenhuma delas ter ido fotografar na frente do palco. Quando fui fazer a função, imediatamente apareceu mais uns 5 fotógrafos. E outra, na postura do técnico de som. Que chegou 15 minutos antes do evento começar e saiu dizendo com descaso “ah, é banda de rock”, acusando um não profissionalismo. Mas que depois, ao ver que toda hora eu ia lá soltar o som ambiente no MP4 em cada final de show de banda, passou ele próprio a fazer isso.


DEPOIMENTO DE RONALDO E KADU (em breve)


Esses dias, o Danilo Sossai, baixista do Anhangá veio me procurar, a fim de conversar sobre o que poderia ser feito para dar continuidade aos trabalhos em Alta Floresta. Contextualizei pra ele do surgimento dos Pontos Cubo no interior do estado e traçamos linhas gerais de pontos a serem debatidos numa reunião. A saber, um integrante do Espaço Cubo e mais quatro bandas irão para a Convenção do Rock e o Anhangá é uma delas. É bacana ver o processo seguindo adiante... Até pouco tempo atrás o Anhangá era uma banda perguntando como poderia se inserir e fazer parte de um coletivo. E hoje, já expande essa tecnologia rumo à interiorização.


Alto, Floresta!


Vamos em frente!

sexta-feira, 20 de março de 2009

Porque Esgroovinhando

Nessa de quebrando a cabeça, pensando um nome pro blog, queria algo que remetesse à identidade, que no meu caso, ficaria bem ilustrada em alguma coisa que retratasse música e escrita.

O primeiro nome que pensei foi Música Redigida. Fui mostrar pra Dríade, coordenadora da Cubo Comunicação.

Dríade: é pouco sonoro

Ney: hmm.. pior

Dríade: e tbm não é só sobre música

Ney: é, não é só sobre música. mas estarei escrevendo sobre esse universo, logo vai ter sempre a ver. A idéia é mais de manter um ritmo de andamento no texto tbm

Dríade: mas aí vc teria que se dedicar muito ao post, pra manter esse ritmo e deixar com cara de música

Ney: ou não.. estarei escrevendo sobre esse universo, logo vai ter sempre a ver. O ritmo que eu digo é mais uma fluência em cima dos assuntos tratados nesse universo, não uma coisa parnasiana

Dríade: hmm.

Ney: Mas concordo que Música Redigida é pouco sonoro.

(passam 5 minutos)

Ney (pensando): Caralho, como fazer isso ficar mais sonoro, puta q o pariu, temq ser algo que relate música e escrita. Música redigida não rola, pô, xô pensar, redação musical é o cúmulo, muito tosco, afff, contra baixo, contra escrita, não, ninguém vai entender, contra, hmmm, escrita, caralho, hm, tocar, escrita, groove, escrever, escrivinhar, ta chegando, esgroovinhar, AE!

É ISSO!

Ney: Dríade, "Esgroovinhar"

Dríade: hahaha.. gostei, bem cuiabano

Ney: é então.. é juntando o groove com "escrivinhar", que é "escrever" em caipirês. Achei massa a relação com o cuiabanês tbm, ainda mais vindo de quem entende do assunto, rs.

Dríade: Na verdade o termo cuiabano é "esgruvinhado"

Ney: ah é.. de cabelo né.. mas esgroovinhando ficou com sonoridade cuiabana também

Dríade: é.. ficou sim

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entaaaooonnnn gore!